Histórico

VARSUL, um banco de dados

 

BISOL, Leda; MENON, Odete Pereira da Silva e TASCA, Maria.


 

Em dezenove de agosto de 1982, com o objetivo de discutir recursos e meios para dinamizar os estudos nas áreas de Geografia Lingüística, Bilingüismo e Variação Lingüística, a convite do Centro de Lingüística Aplicada, coordenado por Margot Levi Mattoso, do Instituto de Letras da UFRGS, sob a direção de Nora Then Thielen, reuniram-se em Porto Alegre, professores representantes das três universidades federais do sul do País: UFRGS, UFSC e UFPR. Nascia então um projeto regional constituído de três grupos de trabalho: 1) Atlas Lingüístico e Etnográfico; 2) Bilingüismo; 3) Variação Lingüística. Esse projeto deveria alavancar os cursos de Pós-Graduação, para que se produzisse um material descritivo da língua falada no sul do Brasil.

O grupo de Variação Lingüística discutiu inicialmente a proposta de Leda Bisol de organizar um banco de dados lingüísticos da Região Sul do País, abrangendo os Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. A idéia era desenvolver pesquisas na linha do Projeto Censo de Variação Lingüística do Estado do Rio de Janeiro, conhecido atualmente como PEUL, coordenado por Anthony Naro.

Em 1983, realizou-se em Florianópolis o segundo encontro do grande grupo.

Em outubro de 1984, por ocasião de uma banca de mestrado da UFRGS, Leda Bisol reuniu em Porto Alegre Carlos Alberto Faraco, professor da UFPR, Solange Lira, da UFSC e Gisele Machline de Oliveira e Silva, da UFRJ, membro da equipe do Projeto Censo do Rio de Janeiro, para discutir a elaboração do Projeto de Variação Lingüística. Participaram desta primeira reunião, além dos mencionados, as professoras Odete Pereira da Silva Menon (UFPR), Clarice Knies (UFRGS) e as alunas Laura Rosane Quednau (Iniciação Científica) e Cristina Job Scmitt (Mestrado).

Essa reunião deu origem ao projeto que, sob o nome de VARIAÇÃO LINGÜÍSTICA URBANA DO SUL DO PAÍS (VARSUL), instala-se em quatro sedes: UFRGS, UFSC, UFPR, PUCRS, esta incluída em 1990.

Na formulação desse Projeto, que contou com a assessoria de Giselle Machline de Oliveira e Silva (UFRJ), pretendia-se levar em conta o número mínimo de cinco informantes por célula, do que resultaria uma amostra muito ampla, cujos custos não poderiam ser cobertos por Agência de Fomento. Em conseqüência, definiu-se que as quatro cidades de cada Estado que o comporiam - étnica e/ou culturalmente expressivas - seriam representadas por um conjunto de 24 entrevistas, 96 por Estado, formando um total de 288 entrevistas, cada uma delas com a duração aproximada de sessenta minutos.

A coleta de dados iniciou-se no Rio Grande do Sul em 1988, e nos demais Estados em 1990, completando-se a amostra básica em 1996, ano em que foi oficialmente inaugurado o Banco de Dados, no I Encontro de Variação Lingüística do Cone Sul, ocorrido de 02 a 04 de setembro na UFRGS.

No decorrer de sua implementação e consolidação, a coordenação geral foi sendo sucessivamente exercida por pesquisadores das diferentes universidades que o sediam. Inicialmente coordenado por Carlos Alberto Faraco (UFPR), seguiram-se Solange Lira (UFSC), Cecília Inês Erthal (UFPR), Paulino Vandresen (UFSC), Ana Maria Sthal Zilles (UFRGS), Odete Pereira da Silva Menon (UFPR) e Maria Tasca (PUCRS), coordenadora atual.

Além de um coordenador geral, cada sede conta com o seu coordenador local, a quem compete, entre outras atribuições, cuidar da manutenção e da ampliação do Banco. Essas agências locais vêm sendo administradas por coordenações sucessivas: Leda Bisol, Clarice Bohn Knies, Ana Maria Sthal Zilles e Valéria de Oliveira Monaretto, na UFRGS; Paulino Vandresen, Izete Lehmkuhl Coelho e Edair Maria Görski, na UFSC; Cecília Erthal e Iara Benquerer Costa, na UFPR e, Maria Tasca na PUCRS.

Reuniões e minicursos realizaram-se anualmente durante todo o período de coleta e transcrição; os cursos foram ministrados por Gisele Machline de Oliveira e Silva, Leda Bisol, Sebastião Votre, Maria Martha Pereira Scherre e Vera Lúcia Paredes.

Por outro lado, nesse mesmo período, efetivaram-se encontros anuais que abrangiam as três áreas anteriormente mencionadas: Geografia Lingüística, Bilingüismo e Variação Lingüística. O primeiro encontro, já referido, ocorreu em Porto Alegre. O segundo, também mencionado, realizou-se em Florianópolis, sob os auspícios da UFSC, no período de 16 a 17 de junho de 1983. Coube à UFPR propiciar o terceiro encontro, que se realizou em Curitiba nos dias 29 e 30 de março de 1984. O quarto tornou a ter por sede Porto Alegre e realizou-se nos dias 12, 13 e 14 de junho de 1985, numa promoção da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, através de um comum acordo da Reitoria, do Curso de Pós-Graduação em Letras e do Centro de Lingüística Aplicada. Esse evento foi dividido em duas partes: a primeira dedicada ao trabalho em grupo das três equipes: Variação Lingüística, Atlas Lingüístico e Bilingüismo; a segunda, de caráter público, compreendeu a apresentação de comunicações referentes a resultados então obtidos e assuntos referentes à temática do encontro.

A elaboração final do Projeto VARSUL se deu em 1985, mas a aprovação e liberação dos primeiros recursos pela FINEP somente ocorreram em 1989, na gestão de Paulino Vandresen, que se estendeu por todo o período da coleta da amostra de base. Com a finalidade de integrar as atividades das diferentes equipes, continuaram as reuniões anuais, coincidindo as últimas edições com o período da realização do Círculo de Estudos Lingüísticos do Sul (CELSUL).

Em 1988, começou a coleta de dados no Rio Grande do Sul, e, em 1990, nos demais Estados, com a liberação dos recursos. As amostras ficaram assim organizadas:

     Rio Grande do Sul: Porto Alegre, Flores da Cunha, Panambi e São Borja.
     Santa Catarina: Florianópolis, Blumenau, Chapecó e Lages.
     Paraná: Curitiba, Londrina, Irati e Pato Branco.

Com respeito à metodologia do levantamento de dados, seguiu-se a linha laboviana, inspirando-se a transcrição das entrevistas no trabalho realizado pela equipe do Projeto Censo do Rio de Janeiro que teve a orientação de Anthony Naro. Evidentemente, escreveu-se uma versão particular, em virtude da diversidade étnica e sociocultural que caracteriza os três Estados que compõem a amostra.

Os dados foram transcritos em três linhas: optou-se pela transcrição ortográfica na primeira linha e pela indicação das variações na segunda, por ser possível, assim, fazer uma relação eletrônica imediata entre a ortografia de uma forma, normalmente uniforme, e suas diversas realizações; na terceira linha, foi feita uma classificação morfossintática dos itens, bem como alguns registros de estilo de fala.

Transcritos os dados, foram eletronicamente armazenados. Com o tempo, as entrevistas gravadas originalmente em fitas-cassete deverão ser regravadas em CD, etapa esta já concluída na PUCRS.

Vale salientar que o Banco VARSUL vem sendo constantemente ampliado com o acréscimo de novas amostras em todas as sedes. À amostra básica, constituída de informantes sem curso superior, distribuídos por grau de escolaridade, sexo e faixa etária (acima de 25 anos), outras vêm sendo acrescidas, contemplando novas regiões, diferentes faixas etárias, bem como níveis de escolaridade. Note-se também que o VARSUL vem se tornando um lugar privilegiado de formação de novos pesquisadores, abrindo portas a alunos de graduação (bolsistas de iniciação científica), mestrandos e doutorandos.